Tempos-incertos
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Opinião de Graça AmiguinhoCada dia que passa, mais me parece estar a ver um filme de ficção.

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Quando as primeiras notícias sobre o COVID-19 surgiram, interessei-me e procurei informar-me sobre o assunto.

Longe de mim estaria a ideia de que isto se tornaria no maior drama do Mundo actual!

O Mundo está em sobressalto. Hora a hora, o número de vítimas e de infectados aumenta em catadupa.

O colapso dos serviços de saúde está prestes a acontecer. Em alguns hospitais de Espanha já se escolhe quem morre e quem vive, por falta de meios de salvação e socorro, devido ao elevado número de doentes infectados, ao mesmo tempo. Itália tem um cenário dramático, vivido pelas famílias que não podem acompanhar os seus doentes e pelos médicos que estão esgotados.

Neste momento, estão contabilizadas  milhares de mortes, causadas pelo vírus.

Neste cenário, surgem gestos de solidariedade, são decretadas restrições no movimento de pessoas, fecham-se fronteiras e todos sentimos o dever de nos isolarmos para evitar males maiores.

Perante este cenário tão dramático, volta ao meu pensamento, o livro de que já vos falei, de José Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”, escrito em 1995.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Uma história, uma ficção, um presságio, ou uma visão do mundo, onde o caos se instala e se manifestam os sentimentos mais horríveis do ser humano e também algumas das suas virtudes.

Uma epidemia obriga o poder político a isolar, em quarentena, as pessoas que cegaram e também os que com eles tinham tido contacto, num espaço de um antigo manicómio, apenas separados por um corredor que dividia o espaço em duas alas.

O segundo caso de cegueira, um oftalmologista que atendeu a primeira pessoa que cegou, ao ser conduzido ao local que lhe fora destinado, num gesto de amor, é acompanhado pela esposa que, não estando cega, mente, dizendo também estar na mesma condição, para poder acompanhar o marido.

A eles se juntam o homem que conduziu, ao oftalmologista, o primeiro infectado, um condutor que ficou parado no meio do trânsito e que se aproveita da situação, lhe rouba o carro, tendo pouco tempo para se gozar da sua habilidade, porque também foi contaminado, assim como as pessoas que estavam no consultório, a rapariga dos óculos escuros, prostituta, que, ao chegar ao hotel onde tinha um cliente marcado, é atingida pela cegueira e é posta na rua, mesmo estando nua, e também um rapazinho estrábico.

Enfim, cegueira em cadeia, isolamento, abandono, degradação de comportamentos, assédio, roubo, assassinato, todas as misérias humanas se manifestam sem que nada pudesse salvar ninguém.

Não irei contar mais nada desta história arrepiante, obra genial de um grande e prestigiado escritor português, nascido em Azinhaga, no Ribatejo, em 1922, homem do povo, mas de uma capacidade intelectual, digna de um Nobel da Literatura.

Aconselho, sim, a sua leitura, não para espalhar o pânico, mas para que cada um de nós saiba acatar os conselhos que nos são dados pelas autoridades competentes, de forma a evitarmos que esta pandemia se torne incontrolável e o número de mortes seja cada dia maior.

Manter a distância, uns dos outros, ficarmos em casa, o mais possível, respeitar as regras de higiene para evitarmos ser transportadores do vírus, são algumas das recomendações que devemos seguir, à risca.

O que pudermos fazer,  será para nosso bem, a salvaguarda dos outros, de uma comunidade, de uma Nação, do Mundo!

Só pensando no bem comum será possível sair ileso desta grave pandemia.

Será difícil compreender como tudo o que se está passando, é possível acontecer nos nossos dias, quando a ciência tanto evoluiu na descoberta de novas terapias.

Mas a verdade, nua e crua, entra pelas nossas casas dentro, transmitida pelos meios de comunicação.

Há, contudo, que ter muito cuidado com os vendedores de promessas, pois é normal aparecerem os charlatães que se querem aproveitar dos mais vulneráveis e desprevenidos.

Muita coisa vai mudar nos relacionamentos humanos e na forma de viver em sociedade.

Lamentamos o que se passa na Itália e em Espanha, nos últimos dias, e desejamos que Portugal encontre os meios necessários, tanto da parte do Estado como de entidades particulares, que nos ajudem a mitigar os danos provocados, a todos os níveis.

Valem-nos as novas tecnologias para melhor ocuparmos os nossos dias e não perdermos a esperança de voltarmos a ver o sol, ir até junto do mar, conviver com os amigos e família, que são a maior razão de viver.

Temos a vida adiada. Confiemos que tudo voltará ao normal, em breve!