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Opinião de Risoleta C Pinto Pedro

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A tertúlia foi, ao longo de muitas décadas, uma das formas de comunhão, debate e transmissão do pensamento e das artes, nomeadamente pelos filósofos, pelos artistas plásticos e pelos escritores, e concretamente os filósofos-escritores do grupo da filosofia portuguesa. Alguns focos se foram mantendo, evanescidos, mas a actual situação pandémica inviabiliza por completo aquilo que Paul Morand define como «Tribunal de consciência e escritório de espírito». Não sei se estou totalmente de acordo, mas sempre é melhor que talk-show.

Em Portugal, o hábito da tertúlia tem vindo a definhar, mas segundo testemunha o fiável Pierre Assouline, em Espanha é um hábito que permaneceu: «Regularmente, grupos de pessoas reúnem-se nos cafés para debater um tema». Por afinidades, evidentemente, mas o que não impede «a discórdia permanente». Segundo ele, «a conversação é aí tão teatralizada, e a palavra tão encenada, que deixa de ser conversa». E acrescenta: «Eu falo, logo existo». É uma evidência que se aplica a muita gente de todo o mundo em situações que ultrapassam, quer a Espanha, quer a tertúlia.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Confesso que me encanta a tremenda energia dos espanhóis, a sua força e convicção que por vezes dá a aparência de discussão a uma coisa que não é mais do que acesa troca de ideias. Deve ser isso que acontece com um estrangeiro que não entenda bem a língua, mas a mim que cresci a ouvir palavras em espanhol pelo meio do português, sobretudo por uma das avós que falava à espanhola, isto é, como se estivesse zangada, o que na maior parte das vezes não era verdade, sendo apenas uma força e convicção que expressava pela entoação e elevação do volume, estas caóticas conversas de café em Espanha são encantadora evocação de momentos felizes. Apesar de eu não ter participado nem sequer assistido aos anos de ouro da filosofia portuguesa, sei, por testemunhos orais e escritos, que não era assim que se passavam as coisas. E ainda que não me tivessem contado, basta saber que uma das figuras centrais, ou mesmo a figura central de pelo menos uma dessas tertúlias, era Álvaro Ribeiro, esse a quem Leonardo Coimbra, na Faculdade de Letras do Porto, dera a nota máxima numa oral onde praticamente não disse nada, pela sua atávica timidez, explicando o professor aos colegas do júri a que presidia, que mais importante que o floreado ou o fogo de artifício argumentativo, era a profundidade, a autenticidade e até… o silêncio. Salientando: «e os gestos?…». Enfim, um professor é um professor. E ser professor significa também ser corajoso.

Fernando Sylvan, António Telmo, Joel Serrão, José Augusto Seabra, António Quadros, Afonso Botelho e António Braz Teixeira
Fernando Sylvan, António Telmo, Joel Serrão, José Augusto Seabra, António Quadros, Afonso Botelho e António Braz Teixeira

Contudo, já assisti a debates onde, sobretudo entre o público, há sempre aqueles que, ou interrompendo, ou aproveitando os momentos finais para as perguntas e discussão, não perdem o ensejo de dar a sua opinião, nem sempre muito avisada, muitas vezes bastante “ao lado”, extensa, emproada e fastidiosa. Pierre Assouline analisa as tertúlias a que assistiu em Espanha e embora, como já disse, não tenham nada a ver com as tradicionais tertúlias da filosofia ou da literatura portuguesa, já encontrei em Portugal em outros grupos de encontro, muitas vezes, como disse, em finais de palestras, casos em que aquele que pergunta não quer ouvir a resposta e frequentemente não entende nada do assunto, ao contrário do que sugere o sábio título do sábio livro Se não sabe por que é que pergunta?, de João dos Santos.

Muitas vezes, o que importa é estar contra a ideia do outro, falar mais do que o outro. Civilizadamente na aparência, mas pior, muito pior do que o aparente caos das acesas discussões no país irmão.

Almoço de homenagem a Álvaro Ribeiro com o grupo da Filosofia Portuguesa, dia 17 de Janeiro de 1981
Almoço de homenagem a Álvaro Ribeiro com o grupo da Filosofia Portuguesa, dia 17 de Janeiro de 1981

O termo “tertúlia”, com o sentido que hoje lhe atribuímos, existe desde 1630, como nome comum e como verbo. A origem estará, para alguns, no nome próprio que lhe deu origem, o de Tertuliano, filósofo e escritor do Império romano, o que me soa a enorme coerência o facto de ter sido uma das formas privilegiadas pela filosofia portuguesa, que é distinguida pela sua intimidade com a literatura. O modo truculento de expressão atribuído a Tertuliano parece ter encontrado em Espanha, segundo Assouline, terreno fértil. Mas terá sido por influência francesa que as tertúlias cá terão chegado, concretamente a partir de Paris, onde praticamente cada café tinha a sua tertúlia ou mais.

TertúliaEm Portugal, como em Espanha, as primeiras décadas do século XX foram os anos dourados das tertúlias. Em alguns cafés permanecem as marcas dos que por lá passaram, ou pelo menos das figuras centrais em torno das quais muitos se reuniram. É o caso do café Águias de Ouro em Estremoz, de que creio já aqui ter falado, onde permanece “a mesa de António Telmo” e onde, após a sua partida, foi acrescentada a sua foto. Voltarei a este assunto. Num tempo em que o confinamento encerra os cafés, lembremos coisas boas que lá aconteceram, gente excepcional que lá passou. E, de alguma forma, ali permanece. Na memória saudosa daqueles que os conheceram. No momento em que escrevo esta crónica, acabei de assistir a uma comunicação do ensaísta Miguel Real, integrado naquilo que hoje se designa por “live”, espécie de tertúlia on-line que nesta época de pandemia tem substituído o convívio familiar, social e cultural. Fala sobre Fernando Pessoa, Padre António Vieira e o V Império, no caso do primeiro, mais europeísta, no do segundo, de dimensão universal. V Império que, visivelmente, ainda vai demorar algum tempo a chegar. Entretanto, enquanto aguardamos o regresso das tertúlias e a chegada da harmonia na terra, vamos falando assim. Não é a mesma coisa, mas é melhor do que nada. O bom que antecede o óptimo. Quanto aos tertulianos que já partiram… tenho uma grande curiosidade: como serão as tertúlias no Além? Alguém sabe?