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Ao cimo das escadas de madeira multiplicam-se as salas apinhadas de verdadeiras relíquias que o tempo não apagou. Bordados, peças de vestuário de outrora, corpetes, aventais são mais de cem. Uma verdadeira casa-museu que Joana Leal e o marido, Leca Dores, exibem com o orgulho de quem contribui para manter viva uma identidade: a de todos nós.

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No corredor encontramos fotografias antigas da Elvas de outros tempos, algumas exclusivas. A cozinha faz-nos viajar até às memórias de infância e recordar objetos e aromas da casa de avós e tias, dos tempos em que a vida tinha outro requinte.

No escritório uma secretária de madeira maciça que pertenceu a um bispo e na parede um estandarte vermelho, esfarrapado, com um cavaleiro pintado, que salvou de um caixote do lixo no Largo do Colégio onde alguém, inconsequentemente o votara. Tudo é história à nossa volta.

Assentamos arraiais numa das salas, primorosamente cuidadas, desde os frescos dos tetos às centenas de bordados que se espalham por todos os cantos. Mesmo ao lado, uma capela, também ela parte integrante do vasto espólio.

Cresceu entre os bordados da mãe e da avó e com quatro anos já pegava numa agulha. As circunstâncias familiares e a vida profissional do pai proporcionaram-lhe uma infância itinerante que ajudou a consolidar a paixão que crescia dentro dela. Procurava o contato com as pessoas de mais idade e com elas conhecia histórias, aprendia novas formas de bordar e enriquecia com os conhecimentos que lhe transmitiam.

O curso de formação feminina acrescentou conceitos, os saberes já ela os tinha.

Os bordados de Elvas chegaram mais tarde, fruto da sua efervescência criativa. O Alentejo está-lhe na base, inspiram-na cores e formas, aromas. As chaves da cidade, a seara que a circundava, as muralhas que a protegem, a espiga e a azeitona compõem o bordado que convida a uma visita.

A complementá-lo, num ateliê que tresanda a poesia, um poema da autoria do terrugense José Tendeiro:

Os lenços das sortes, de que lhe falava a avó, apaixonam-na. Lamenta a perda de importância que têm conhecido numa sociedade de desgaste rápido onde nada já é como outrora. Exigiam grande perícia e perfeição já que, antes de oferecidos, passavam pela verificação das bordadeiras mais experientes. Contabilizavam-se os pontos, aprovavam-se as cores.

Os lenços das sortesDepois disso eram entregues aos rapazes que se apresentariam “às sortes” como sinal do seu comprometimento: “eles passavam pela aldeia com o lenço na mão e assim se sabia os que tinham namorada e não tinham”. Com orgulho exibe-nos um exemplar, com dezoito tipos de ponto diferentes, que bordou para perpetuar a peça.

Empresta um pouco de si a cada criação, dá-lhes vida. “Não lhe tiro a história, continua lá, mas crio algo diferente”; conta-nos com a serenidade que se lhe reconhece.

Ao Alentejo vai buscar a inspiração: “Cristo deve ter nascido no Alentejo e aqui deve ter sido crucificado, é a minha maneira de entender. Elvas é também fonte da sua inspiração, percebe-se a paixão que se estende às pessoas que passaram pela sua vida: “a Cardosa, a minha avó, as pessoas com quem tanto aprendi.”

Alguns sacos de pano, com poemas bordados, pendurados a um canto, despertam-nos a atenção. Pedaços da história de amor com Leca, dos tempos idos do namoro: “quando namorávamos, ele escrevia-os e deixava-os como se fossem um escrito antes de se ir embora. Depois casámos e ele pensava que isto já não existia.” Enganou-se. Joana guardou-os com o carinho que lhe mereciam.

Certa vez, estando a expor na Casa do Alentejo em Lisboa, comentou o episódio com o encenador Filipe La Féria que a incentivou a bordá-los. Chamou-lhe “poesia ensacada” porque em sacos os tinha guardado. “Tenho pena que o meu marido não queira editar, é o meu poeta preferido.”

Tem corrido mundo enquanto embaixadora da sua arte e da cidade de Elvas, de Dallas a Milão, de Almeria a Sologne, passando por Paris e outras tantas cidades espanholas, em todas a convite. Conta-nos com satisfação a forma calorosa como a recebem e o interesse que demonstram pela sua arte e pela forma como lhe dá forma.

O “enigma dos poetas” foi outro projeto da sua autoria, voltando a unir duas artes que lhe moldam o caráter: “dou cor e sentido ao nome das pessoas, neste caso dos poetas.”

O enigma do Papa Francisco

Mereceu-lhe um prémio em 2001, apesar de, à primeira vista, a artesã não estar convencida do trabalho que expunha a concurso. Foi o marido, Leca, que a incentivou. “Começo no poeta terra que é Camões e acabo no sangue de Fernando Pessoa.” Tudo lhe faz sentido, nada é à toa. Emana criatividade por todos os poros.

Adaptou-o a outras personalidades, o mais recente dedicado ao Papa Francisco, “segundo a minha perspetiva de o entender, dando cor e símbolos à sua história”. Maria Cavaco Silva foi também alvo dos seus enigmas, mas também Michele Obama, Agustina Bessa Luis, Vitorino, Teresa Salgueiro.

O vestido de noiva, “a pureza”, onde utilizava dezasseis técnicas diferentes valeu-lhe em França, em 2008, um primeiro lugar.

A Mulher amordaçada, uma das suas peças mais afamadas, revela-lhe os ideais. As memórias de uma infância distante onde as mulheres que a rodeavam se viam subjugadas, contrariamente às que conheceu um pouco por todo o país: “andava pela Beira, pelo Norte e via as mulheres irem à taberna, beberem uma malga de vinho e aqui no Alentejo as mulheres estavam sempre em casa.”

Mostra-nos as caixas de ameixas que bordou, retratos fiéis das que outrora se utilizavam no empacotamento de outro dos tesouros de Elvas. Com ela guarda orgulhosamente as rendas de papel da saudosa D. Cecília, outro nome ímpar do artesanato da cidade.

Os olhos brilham quando nos conta as visitas feitas pelo Canal Extremadura da vizinha região espanhola. Divulgam-lhe a arte, alimentam-lhe a alma para resistir e continuar o seu labor.

São poucos os visitantes que lhe chegam de Elvas, incontáveis os estrangeiros. Apesar de orgulhosa do património que tem sido capaz de preservar, lastima que muitos a visitem pela curiosidade que a casa-museu desperta. Mas não é ela que lhe confere o sustento, vive dos bordados. Não esconde que gostaria de ver o seu espólio valorizado num espaço museológico. Seriam necessários apoios. A autarquia tem-se mostrado sensível. Já passaram vinte anos. Habituou-se a contar apenas com o que permitem os seus recursos e a sua vontade.

Em 2001 aventurou-se pela formação profissional e foi com prazer que transmitiu os seus conhecimentos a formandas interessadas como a Manuela Cadete e a Sílvia Copeto. Gostava que se preservasse o conhecimento, “gostava que os enigmas fossem ensinados à população, tal como o bordado d’Elvas, que fosse explicado o porquê deste bordado e perpetuados os lenços das sortes.” Teme-lhes o futuro. Gostava de ver o bordado certificado. Gostava de tanta coisa. O sonho comanda a vida.

Queixa-se das limitações que o Parkinson lhe vem trazendo. As mãos não são as mesmas de outrora. Vende-se pouco, mal chega para o gasto. Vale-lhe a “sua” Ludovina, é ela quem a ajuda, quem lhe mantém vivo o sonho: “tem umas mãos de fada”.

A inquietude que a atormenta fá-la continuar, até quando, não sabe.

As histórias entrelaçam-se umas nas outras, fala-nos de afetos, embala-nos com a poesia que traz na voz. A visita sabe a pouco. Fica a promessa de um regresso.