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As Ameixas d’Elvas foram premiadas pela CEUCO, Conselho Europeu de Confrarias, na categoria European Artisan Producer 2016. Quisemos conhecer as vidas que guardam nelas.

O olhar é atraído pelo Arco do Miradeiro. Milenar, guarda histórias remotas dos tempos da sua construção, durante o domínio islâmico.

Mesmo em frente, a vizinha porta de madeira, estreita, passa desapercebida aos transeuntes. Não desconfiam sequer que, para além dela, se esconde um dos tesouros de Elvas.

Ao som estridente da campainha seguem-se passos e, de sorriso aberto, Luís Conceição, o atual proprietário, recebe-nos com a hospitalidade dos alentejanos em geral, dos elvenses em particular.

O corredor desagua num hall onde se destacam dois quadros do ”amigo João Tenreiro”. Um feito para o pai Mário, tendo como pano-de-fundo a Rua das Beatas, que na década de 70 se encheu de flores pela mão da saudosa Senhora Dona Maria do Rosário Mello e Sousa. O outro oferecido ao filho Luís, já na década de 90, representa o Aqueduto da Amoreira, o ex-libris da cidade.

Avesso às luzes da ribalta queixa-se do recente assédio da comunicação social: “Não é do meu feitio”. Trai-o o brilho no olhar, a paixão pela atividade que foi dos pais e na qual cresceu.

o prémio "European Artisan Producer 2016", atribuído pela CEUCO ©João Carvalho
Prémio “European Artisan Producer 2016”, atribuído pela CEUCO ©João Carvalho

“Santos de casa não fazem milagres”, acrescenta. O reconhecimento chegou de fora, uma vez mais. A proposta partiu da Confraria Gastronómica do Alentejo. Desafiaram a Ameixa d’ Elvas a representá-los na edição 2016 dos Prémios Aurum. E a escolha não podia ser mais acertada.

Com orgulho aponta para o prémio disposto em cima da secretária de madeira, ao lado das fotografias da mãe e das filhas.

A distinção coroa quase cem anos de atividade artesanal que se iniciou com o padrinho do pai, depois com o pai e agora com ele. O prémio é de todos. E da mãe, a Dona Catarina, durante décadas a alma da fábrica, que vibrou tanto ou mais que o filho com este reconhecimento. Faz-se justiça.

Luís Silveirinha da Conceição ©Elvasnews
Luís Silveirinha da Conceição ©Elvasnews

“Não contei a ninguém até receber o prémio. Não gosto muito destas coisas e às vezes podia dar para o torto”, confessa-nos. Percebe-se o entusiasmo. “Desde 1933 que a Ameixa d’Elvas não era premiada. A última vez foi através da fábrica José Guerra & Irmão”. Na era dourada da atividade.

“Chegou a haver cinquenta e duas fábricas de ameixa em Elvas, na sua maioria familiares que depois reuniam tudo nas grandes fábricas.” Atualmente, a operar de acordo com o tradicional método de fabrico, apenas a sua. Da cozedura à fervura, ao primeiro ponto e deste ao segundo: a fruta fica pronta.

Empregadas tem duas, uma efetiva. Habitualmente transformam cerca de dez toneladas de ameixa oriundas dos pomares da região: Elvas, Borba, Vila Viçosa e Estremoz, os únicos com o microclima ideal para o ideal desenvolvimento da ameixa Rainha-Cláudia. Certa vez, o pai foi comprar ameixa a Mirandela. “Veio no comboio, aos trambolhões” e de nada serviu. “Desmanchava-se na cozedura”.

O ano agrícola foi mau. A matéria-prima falta e a disponível está mais cara. A produção não irá além das três toneladas. Transformam também pêssego e outras frutas. O processo é o mesmo. Complementa a faturação.

São às dezenas os alguidares que se espalham pelas prateleiras de madeira que enchem a sala. Descansam na calda de açúcar a aguardar o embalamento. Lá estão as afamadas Ameixas d’ Elvas.

A internacionalização

A Europa vai voltar a ouvir falar deles, das ameixas que fizeram as delícias da escritora Agatha Christie. Em tempos exportavam-se para a Inglaterra e os Estados Unidos, aos milhares de quilos, mas os requisitos legais e as burocracias levaram-nos a abandonar a ideia: “foi uma questão política”. Ainda se aventurou num negócio de fornecimento de marca branca para Inglaterra mas a coisa não correu bem. “E não se fala mais no assunto”.

©Elvasnews
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Mede as palavras. É contido no discurso. Revela-nos que a maioria da produção é vendida para o Porto, outro tanto para Lisboa. Não refere os nomes dos distribuidores: “não gosto de publicidades”. São eles que fazem chegar a Ameixa d’ Elvas às casas mais requintadas das duas cidades.

Casamento perfeito

Deixa, novamente, aflorar o orgulho para nos contar mais uma façanha. Abre um meio sorriso que tem acompanhado a conversa. Foi o pai, na década de sessenta, setenta, em conjunto com o diretor da Pousada de Santa Luzia da época, cujo nome lamenta não se recordar, que pela primeira vez associou a sericaia e as ameixas. No tempo em que a sericaia da Pousada se fazia em pratos de estanho: “É uma curiosidade que pouca gente sabe.” Casamento perfeito. Hoje os dois estão naturalmente interligados.

©Elvasnews
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A inovação trouxe alterações significativas no modus operandi da fábrica. A ameixa seca foi confinada a um papel secundário e a ameixa em calda ganhou honras de destaque no portfolio. Passou a ser a mais consumida, colmatando a quebra de vendas gerada pelo fim da exportação para os Estados Unidos.

Fala-nos do interesse que a fábrica desperta nos turistas que visitam a cidade. Nas diversas divisões que compõem a fábrica recebe centenas de visitantes a quem dá a conhecer a atividade, oferecendo-lhes no final uma degustação do produto. Para venda, algumas embalagens. Alguns compram outros não. Extasiados ficarão, tal como nós, com a panorâmica oferecida pelos terraços repletos de alguidares. Com uma vista privilegiada sobre a baixa do casco antigo, destaca-se o torreão da igreja dos Terceiros, São Joãozinho mesmo ao lado e São Pedro mais abaixo. Lá ao fundo a imponente Badajoz e detrás do Forte de Santa Luzia, Olivença.

O futuro

Lastima o estado a que chegou a atividade, numa cidade com uma elevada taxa de desemprego e um fraco tecido empresarial. Compreende que os investidores se afastem, o processo é artesanal e os custos elevados.

©Elvasnews
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“Faltam apoios”, diz-nos. O cansaço dá lugar à desilusão. Sente que mais podia ser feito: “as atividades e produtos artesanais em Elvas valem zero. Devia existir um centro onde se reunissem todos esses produtos: as azeitonas de Elvas que são de Elvas e não estão em Elvas, as Ameixas d’Elvas que são de Elvas e não estão em Elvas, a sericaia que é de Elvas e dizem que é de Campo Maior.”

Relembra a confraria francesa que conheceu na entrega dos prémios. Sedeada na região de Roscoff, certificou a cebola produzida na região e fez dela o produto âncora da economia da região.

“Vamos trazer a Elvas o que é de Elvas e criar a marca Elvas”.

A três anos de assinalar o centenário da atividade, Luís Conceição tem dúvidas quanto ao futuro. As filhas, uma a residir em Elvas e a outra fora, estão bem posicionadas. A mulher também não demonstra interesse em lhe dar continuidade.

“O futuro não é negro, está um bocadinho cinzento”.

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