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No coração de Santa Eulália, a meio da rua que partindo da Igreja Matriz rasga a aldeia, encontramos o berço dos capotes que há mais de oitenta anos se confecionam por estas paragens.

O passado está presente em cada pormenor, cada recanto, mas o futuro assoma-se na visão que o proprietário tem do negócio.

Por detrás do balcão, amplo, espelhados por diversas prateleiras encontramos os capotes, meticulosamente dobrados, em várias cores e tamanhos. Ao fundo um manequim, em madeira, enverga um exemplar cor de mel, longo. “O homem deve usá-lo longo, até à altura do tornozelo. A senhora também o usa mais curto.”

A fundação atribuiu-se ao pai de José Alpedrinha, aprendiz de alfaiate em Mação, vila beirã, vizinha do Alto Alentejo. O empreendedorismo do pai a que o filho soube dar continuidade: “os principais clientes eram naturais de Elvas, Redondo, Reguengos e Évora”. Quiseram vir ao seu encontro. O destino era Elvas, acabaram por se fixar em Santa Eulália onde instalaram a sua própria alfaiataria.

O filho já nasceu em terras alentejanas: “gosto de evidenciar isso, sou nascido em Santa Eulália, é a minha aldeia.”

A origem do capote perde-se na memória dos tempos. Sabe-se que abrigou o contingente de soldados alentejanos que marcaram presença na 1ª Guerra Mundial, conta-nos: “não era bem o capote que nós temos hoje em dia, mas era muito igual”. Mas a fama chegou-lhe através dos pastores. Chamavam-lhe gabão. Aquecia-os do frio, protegia-os da chuva e do orvalho da manhã: “era uma lã feita com a gordura da própria ovelha que servia de impermeável”.

Há cinquenta anos à frente do negócio, tinha dezanove anos quando nele se iniciou, à séria, porque toda a sua vida foi passada entre lã e peles de raposa. José Alpedrinha orgulha-se de, com a sua atividade, perpetuar uma tradição tão importante do Alentejo.

Atualmente menos popular que outrora, o capote não é usado em qualquer circunstância. Usa-se como sinónimo de elegância: “fica muito bem, tanto às senhoras como a cavalheiros”.

A um espetáculo, à Missa do Galo, as utilizações são diversas e sempre com o mesmo requinte.

A lã, o burel e a pele de raposa são as suas matérias-primas. Preocupa-o saber que, das muitas, apenas uma fábrica de burel ainda opera na região da Serra da Estrela. As outras fecharam. Com os capotes passa-se o mesmo: “sou apenas eu e algum alfaiate que saiba trabalhar o antigo”.

Nem todos os teares produzem a especificidade de tecido necessário para dar corpo aos capotes.

A pele de raposa encarece a peça. É com ela que trabalham, usa-se mais. Chegou a ser a de borrego. Não sendo um animal em vias de extinção, os caçadores não tem por hábito comercializar a pele da raposa selvagem, reduzindo a oferta no mercado e elevando o preço de aquisição.

O produto e a qualidade que ostenta são o principal cartão-de-visita: ”nós nem fazemos muita publicidade”. A perfeição do corte, dos pontos, está-lhes no ADN, fizeram da alfaiataria uma arte.

Os clientes aparecem-lhe à porta. A internet facilita-lhes a vida. Alguns telefonam e pedem indicações para chegar até eles, outros valem-se do GPS. A seguir ficam pela aldeia, aproveitam o dia. Pedem indicações de onde comer. Dinamiza-se a economia local num todo.

Além dos capotes, confecionam também a samarra tipicamente alentejana. Fazem-na desde sempre. Sem reservas, afirma que as há espalhadas pelas arcas dos montes alentejanos, desde há décadas. E do país.

Noutros tempos, em que a economia era mais pujante, a partir de Santa Eulália forneciam o país todo, a sul de Coimbra. Chegaram a empregar oitenta costureiras. A maioria das mulheres da aldeia trabalhou naquela fábrica. Nessa altura, a cada inverno, confecionavam milhares de capotes e samarras. Continuam a fazê-los, às centenas, dando trabalho a menos pessoas mas, ainda assim, pode variar entre três e sete, no período de maior dinâmica comercial.

Os seus produtos podem hoje ser encontrados na loja, contígua à fábrica, mas também em Évora, Estremoz, Santarém ou Lisboa.

Pelas paredes espalham-se fotografias e recortes de jornais onde o produto é estrela, envergado por diversas figuras públicas. Prende-se-nos o olhar num artigo alusivo ao Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. Era da fábrica de José Alpedrinha, o capote que envergou quando se deslocou a Estocolmo para receber a mais elevada distinção do mundo das letras.

Não só ele, também todos os Presidentes da República Portuguesa: “julgo que quase todos”. OS Ministros da Agricultura, deputados, o falecido Mário Soares, D. Duarte de Bragança. Conta-nos que, ainda na atualidade, membros da Casa Real são clientes habituais, especialmente em quadras festivas como o Natal. Deslocam-se a Santa Eulália para aí adquirem alguns dos presentes. As estórias fazem a história.

Quanto ao futuro, é possível mas não o vê facilitado. A aprendizagem é difícil e falta o interesse e entusiasmo das camadas mais jovens: ”eu até gostava de transmitir aos jovens esta arte.”

Não os vê vocacionados para as profissões e lamenta-o. Num país com tanto desemprego podia ser um caminho a seguir.

Reconhece o potencial de negócio que os seus produtos têm para os mercados externos. Acredita que a presença em mostras internacionais atrairia compradores, apesar de já por lá andarem há algum tempo: “vou a Londres e vejo o meu capote. Vou a Paris e vejo o meu capote. Vou a Madrid, vejo o meu capote”.

Mais podia ser feito, pela mão de jovens empreendedores. Ocupar-se-iam das vendas, a fábrica estaria na retaguarda para satisfazer os pedidos.

Falta-lhes a paixão, a curiosidade que moveu o pai de José Alpedrinha a deixar o certo pelo incerto. E vingou.

O inverno está no auge. Arroupa-se a gola ao redor do pescoço. Nada veste tão bem como um bom capote.

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