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Ecoam na alma despertando a nostalgia de natais passados, aquecendo as noites frias de Dezembro. Zabumba, zabomba, roncadeira, zurra burros, zorra são muitos os nomes que lhe atribuem. As roncas de Elvas.

No miradouro do Castelo, onde se confirma a letra que Paco Bandeira imortalizou, encontrámos o berço de um dos tesouros de Elvas.

Dezenas e dezenas de peças, em diferentes estádios de preparação, roncas e não só, enchem o ateliê circular, parte integrante do dito monumento.

Luís Pedras é o impulsionador desta arte, ceramista, como prefere ser denominado: “artesãos há muitos e de muitas coisas”. Ao barro dá corpo, empresta a alma.

Conduz-nos até uma ronca de grandes dimensões. Percebe-se-lhe a predileção. Assemelha-se a um batuque, inscreveu-lhe um poema da sua autoria, decorou-a com motivos da sua viagem à Tailândia. É notória a influência que o Oriente exerce no seu trabalho, no seu sentir. Os primeiros acordes provocam emoções aos que conhecem o som rouco e arrastado de uma ronca. Arrepiam a pele.

©Elvasnews

Surgiu-lhe a olaria por um acaso. Durante praticamente dez anos foi ajudante de despachante, quando o Caia era o local de trabalho de muitos elvenses. O Mercado Único e o fatídico 1 de Janeiro de 1993 mudaram-lhe a vida: “na altura ficaram desempregadas mais de duzentas e tal pessoas, direta e indiretamente”.

Foi justamente no Centro de Emprego e Formação Profissional da cidade que um prospeto lhe chamou a atenção para um curso de pintura artística: “eu já pintava, eu já escrevia, eu já fazia até escultura mas nunca ligado à cerâmica.”

As expetativas saíram goradas. Esperava uma formação de pintura de telas ou de acrílicos mas, em lugar disso, endereçaram-no para o Centro Regional de Formação de Artesãos de Reguengos de Monsaraz onde fez provas de pintura e de cerâmica.

Foi o Mestre Tavares que o incitou a experimentar a olaria, reconheceu-lhe o talento à primeira peça que realizou com perfeição.

Fez-lhe sentido. Numa mesma atividade, a comunhão dos quatro elementos da formação do universo: “a terra que é o barro, a água que permite moldar o barro, o ar que o deixa secar, que o deixa respirar, a energia, e o outro elemento fundamental que é o fogo, que o transforma, que o purifica, que o eterniza.”

Enraizou-se-lhe. Tirou outros cursos. Esteve em Coimbra, cruzou-se com Arcadio Blasco, “um dos grandes mestres da cerâmica internacional, amigo do Picasso e do Dali”. Com ele aprendeu mural e pintura cerâmica.

As técnicas orientais, tais como o raku, marcaram também a sua forma de criar, despertando-o para a versatilidade e potencialidade que a cerâmica oferece, da modelagem, dos vidros, da cromática: “é como uma alquimia”.

Considerada, desde sempre, como uma arte menor, a cerâmica ganha importância com o interesse demonstrado por Picasso em meados da década de 40 do passado século: ”na Europa porque no Oriente sempre foi a arte maior. Há porcelanas da dinastia Tang, Ming e Tsin que superam os recordes dos quadros famosos dos grandes pintores e são peças eternas”.

Tem poesia na voz, na alma. Fala-nos do seu primeiro livro, “Silêncio Ensurdecedor”. Declama um poema da sua preferência. Inspira-o o Alentejo. É dele que vem o silêncio que o ensurdece.
Quis saber mais, investigou, pesquisou e ligou a arte às suas emoções, mantendo-lhe a história, acrescentando-lhe identidade. A sua.

“Podia ser apenas um fazedor de tachos e panelas, mas não. Quero deixar uma marca, uma imagem, uma esfinge daquilo que eu faço, respeitando o tradicional”.

©Elvasnews

As roncas foram-lhe apresentadas pelo Mestre Tomás Vinagre, cozinheiro, de profissão, no quartel da cidade. Desafiou-o a recuperar o tradicional instrumento musical que marcava os natais elvenses. Teve dúvidas mas não se fez rogado: “fazes um cântaro, pões-lhe uma zona para atar a pele e temos uma ronca”.

Seduziu-o a sonoridade mas também a tradição enraizada na memória coletiva. Alimentou-lhe as emoções.

A conversa é interrompida pela entrada e saída de visitantes. Munidos de câmaras fotográficas, assomam a cabeça para o interior do espaço e são de imediato convidados a conhece-lo. Alguns vem direcionados. Já ouviram falar e mostram curiosidade por conhecer a ronca d’ Elvas. Outros vem ao acaso e saem esclarecidos.

Luís Pedras tem levado as roncas d’Elvas aos quatro cantos do mundo, da Europa à Nova Zelândia, da Rússia aos Estados Unidos: “o instrumento desperta muito interesse, pela sonoridade muito singular, muito própria, porque depende do tamanho da forma, da espessura da pele, da cana, tem sons variados, mais grave, menos grave, mais agudo, menos agudo”.

Espetador atento, de pelo preto e olhar astuto, o rafeiro Amon movimenta-se no espaço com grande à vontade. Conhece-lhe os cantos. Junto à porta, várias tigelas saídas das mãos do ceramista servem-lhe água e comida.

O barro chega-lhe de Elvas, mas também do Pombal.

Restaurou as roncas d’ Elvas que estão no Museu Nacional de Etnologia onde encontrou também algum espólio trazido de África. Quanto mais descobriu mais se apaixonou pelo instrumento: “a ronca é um instrumento muito arcaico, muito antigo, não é exclusivo de Elvas. Contudo, no livro de Ernesto Veiga de Oliveira, a “Bíblia” dos instrumentos portugueses, é referido que é na cidade de Elvas, com as roncas aí fabricadas em grandes quantidades que as outras localidades se abastecem”.

©Elvasnews

Orgulha-se de ajudar a divulga-lo: “neste momento estou a produzir à volta de mil roncas por ano, mais ou menos, portanto há vinte anos, são mais de vinte mil roncas pelo mundo inteiro”. Já ganhou prémios, marcou presença em feiras internacionais na Casa do Alentejo, projetando o nome de Elvas.

Contudo, a especificidade da atividade e a sua componente técnica faz dele o único na cidade a produzir as roncas d’ Elvas. Certamente será o maior produtor de roncas não só de Portugal mas também de Espanha.

Queixa-se do município. Sente que não acarinham convenientemente a ronca. Acalenta o desejo de a inscrever no Livro dos Recordes do Guinness. Outros figuram por lá: “o maior número de tambores, está lá, o maior número de outros instrumentos, estão lá, mas as roncas não estão.”

©Elvasnews

Propunha-se juntar num mesmo espaço 1.000 roncas a serem tocadas em simultâneo. Faltam apoios. Falta quem se interesse. O nome de Elvas andaria pelo mundo inteiro, pelas melhores razões.

Mais que o património monumental da cidade, destaca o valor das suas gentes que deve ser potenciado. Na sua incursão pela política, da qual já se diz afastado, procurou que fosse criado um Centro de Artes e Ofícios e é com satisfação que o vê agora anunciado. As coisas acontecem a um ritmo lento mas, ainda assim, o importante é que se façam.

O futuro das roncas d’ Elvas não o preocupa. Diz-se otimista e positivo. Imagina-se a fazer roncas com avançada idade, assim a força se mantenha. Por outro lado, o filho poderá assegurar a sua continuidade: “ele gosta, já produziu algumas comigo”.

Prepara-se para uma incursão no ramo da restauração. A loja situada na Parada do Castelo dará lugar a uma Casa de Pasto, reforçando a oferta naquela zona alta da cidade que precisa ser valorizada: “o Castelo de Elvas é Património Mundial mas já era Património Nacional. Foi classificado antes mesmo do Mosteiro dos Jerónimos”.

Mais que uma aposta comercial, tenciona dar condições aos filhos para que se fixem na sua cidade natal e evitar que tenham de rumar a Inglaterra, como no passado já o fez o seu irmão. Não tem dúvidas em afirmar que é preciso reter a massa cinzenta. O país investiu na sua formação, deve proporcionar-lhe condições para poderem retribuir.

Otimista, sem receio de assumir a sua opção partidária mais à esquerda, conclui: “as coisas estão a melhor agora”.

Nota da redacção: Esta reportagem foi realizada no ateliê de Luís Pedras, no dia 26 de Novembro de 2016. A entrevista vai ser emitida, em vídeo, no próximo sábado (17 de Dezembro).

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