Todos os sentidos

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Há quem tenha nascido no Alentejo e sido conduzida rumo ao norte pela vida, como é o caso da nossa muito querida Graça, colaboradora do Elvasnews, mas hoje trago a esta página a poesia de uma mulher nascida no norte, cujos caminhos a trouxeram até ao Alentejo, onde actualmente vive em contacto com a natureza, na simplicidade do quotidiano e na concentração do trabalho como autora e investigadora.

É sempre mais fácil sentir a pulsação da alma do mundo quando nos retiramos para lugares mais recuados e silenciosos. Pode surgir, então, a poesia, essa profecia da humanidade. É o caso de Manuela Gonzaga, que já foi jornalista, e que o leitor certamente conhecerá, se não da actividade política, talvez da sua notável produção como ensaísta ou ficcionista. Tem escrito, privilegiadamente, biografia histórica. A esta autora traduzida, foi atribuído, em 2021, o Prémio Femina/Matriz Portuguesa.

Neste mesmo ano (agora, para o leitor, já passado), surge o seu primeiro livro de poesia, mas não a poesia, que já há muitos passos a acompanha. Foi a editora excelentemente escolhida, pela sensibilidade e qualidade que lhe é reconhecida: as Edições Sem Nome. O livro intitula-se O Caminho dos Sete Sentidos e trata-se de poesia alquímica, como afirma o editor em nota inicial. Por isso, encaixa bem na colecção: “Ouro Potável”. Não por o editor o afirmar, por o livro o dizer, como o “Solve e Coagula” e “A Obra ao Rubro” que intitulam poemas, é porque sim, porque é. Sem explicações, evidente para quem sente o que lê.

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Vamos nós ver o que mais encontramos:

Começo por afirmar que é um belíssimo livro, por fora e por dentro. No interior pode o leitor encontrar o convencional verso e a que já vai sendo também convencional: a prosa poética; mas nada na estrutura nem no conteúdo o é.

Começamos por encontrar um texto poético antes do início do livro propriamente dito, e perguntamo-nos: fará parte d’O Caminho dos Sete Sentidos? É um texto prévio solto, uma epígrafe?, espécie de mote como a epígrafe tem a potencialidade de ser, onde podemos ler o que almeja, o encontro com aquilo que outro Poeta definiu como «o nada que é tudo». Projecto para uma Humanidade. Trabalho de Tântalo, trabalho de Hércules. Só depois disto tem início o livro com a ficha técnica e a nota do editor. Resumindo, toda a estrutura tradicional de pernas para o ar:

Manuela Gonzaga
Manuela Gonzaga

A folha de guarda, geralmente em branco logo a seguir à capa, não existe; a falsa folha de rosto ou pré-frontispício está presente, como a folha de rosto ou frontispício, mas antes, no lugar da folha de guarda, um poema ou uma intenção, de que falei acima. Uma intenção poética?

Segue-se o frontispício, e no verso, a ficha técnica a ladear com a nota do editor; nas páginas ímpares das duas folhas seguintes, um poema em verso e um poema em prosa. O poema em verso esmaga-nos pela paradoxal afirmação, e assim nos trata como ao metal impuro que na primeira fase da Obra necessita de ser esmagado no almofariz. Transcrevo, pois não resisto:

«Todas as chaves que encontrei/ Eram verdadeiras todas// Me disseram que/ Não havia portas»

Neste momento já estou rendida ao livro e ainda só li aquilo de que até aqui falei.

Já nos tinha sido expressa uma intenção e recebemos agora no colo a perturbação de um enigma. Será esta a epígrafe? Seja como for, não é texto citado de outro autor, mas texto próprio.

Contudo, há mais. Lá para a frente, quase no fim, numa das páginas pares, não inscritas, duas palavras latinas que bem conhecemos, em maiúsculas: «MISERERE NOBIS». Poema inacabado, título, sugestão, indicação de oração para o nosso caminho? Antídoto prévio para o que se segue, o último poema do livro?

Pareço talvez demorar-me excessivamente em questões de forma, mas é sobretudo de uma arte poética que me ocupo. A simples anteposição da intenção poética ou alquímica naquela que deveria ser uma folha inicial despida, traz uma interrogação essencial: O que é poesia? Em que páginas do livro cabe o poema? Que relação das páginas do livro onde convencionalmente não há poesia, com a poesia que o livro abriga?

O texto em “prosa”, uma espécie de apresentação essencial ou biografia da alma, fala-nos de nós, pelo menos daqueles que têm procurado as sombras com o reconhecimento de que de sombras se tratam.

Manuela Gonzaga - O Caminho dos Sete SentidosApenas depois desta agitação anímica de três pré-textos, que não pretextos, espaço de umbral ou passos perdidos, estamos em condições de penetrar na obra, que se anuncia com um grande I romano a anteceder uma parte nomeada “Mistérios”.

Serão três os números, mas mais as partes, que pairam entre a memória biográfica imaginativa e o misterioso desafio que sempre a poesia é, com um acréscimo que nem toda a poesia tem, e que me encanta: o ritmo. Da poesia verso resta ainda dizer que reforça pela metáfora, per-versamente o que a poesia prosa parece confessar. Assim abre espaço à dúvida, à interrogação, à perplexidade, à incerteza. Caminhamos cambaleando pelos versos. Há um diálogo lamentoso com a mãe e nos poemas seguintes os mitos que lhes dão nome, Deméter, Orfeu e Elêusis,e antecipam a parte que se segue explicitamente intitulada “Mitos”. Mas já fôramos introduzidos, pois teve a autora, como mestre de cerimónias, o cuidado de no-los apresentar, numa espécie de preparação para a iniciação.

Ritmicamente, há um saborear da repetição, um deleite com a melopeia, um parar o verso no sítio certo, como esperaríamos nós, se fosse nossa a pena. Muitas vezes nos deparamos com a estrutura trinitária, na repetição da palavra («E ver-te e ver-te e ver-te»), na repetição da ideia, que é uma afirmação: («Esconder, esquecer, fugir»).

O animal atravessa o Mundo poético de Manuela Gonzaga, e a Mãe, e o Mito, e África, por onde deambulou anos e anos, e todo o Universo, pois entende as estrelas.

Diria, desta poesia, que é a luz da sombra, imitando eu desastradamente o belo título de um dos belos poemas: “A Sombra da Luz”.

Muito comoventes são as passagens criadas como por criança, aquelas em que a consternação a invade por não poder acudir à morte das estrelas («E nós tão longe sem poder/ fazer nada…». Estes poemas alertam-nos para o melhor de nós com a ousadia que apenas um ser que permaneceu criança em algum canto do seu mundo poderia fazer. Quem se atreveria a mudar a oração do Pai-Nosso pondo-a do princípio para o fim, que não alguém assim?

Retemperadora, a palavra desta mulher habituada a olhar muito para dentro e a olhar para fora com olhos de dentro, mostrando-nos depois, com palavras, o perfil do que viu. E que é preciso recolher em taça cristalina que há-de ascender ao Santo dos Santos, porque ali iremos beber sempre que a terra sob os nossos pés tremer.