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Talvez assim fosse em muitas aldeias do nosso Alentejo. Porém, eu posso falar do que vivenciei ao longo da minha existência nesta linda «Flor do Alto Alentejo» durante o séc. passado.

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Os namoros começavam em tenra idade. O meu foi um desses. Aos treze, catorze anos , muitas raparigas e rapazes decidiam quem seria o amor das suas vidas. Corriam os anos e havia passos sucessivos que faziam parte das tradições.

Assim, quando a rapariga aceitava namorar com certo rapaz, os pais consentiam que ele fosse conversar com a rapariga três dias por semana, alternados, à janela ou ao postigo.

Havia alguns casos em que o namoro era à porta se os pais iam na conversa. Para o rapaz entrar na casa da sua namorada tinha que, antecipadamente, pedir licença aos pais dela. Se o consentimento fosse dado, então namoravam sentados em determinado lugar da casa de entrada ,sempre vigiados pela família, em especial pela mãe que zelava pelo bom nome da filha.

Os namoros eram longos, como foi o meu; dez anos que não custaram nada a passar e sempre com o mesmo encanto.

“Canto a minha terra, a minha gente ! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Quando chegava a hora de ser escolhida a data do casamento, os pais do noivo e o noivo, claro, iam a casa da noiva pedi-la em casamento, levando como prenda o anel de comprometida e recebendo em troca outro anel, geralmente em ouro branco, oferta da noiva.

Começavam, então, os preparativos para o enlace. A noiva preparava cuidadosamente o enxoval, muitas vezes bordado por ela à mão, as cortinas, as loiças e ia fazendo mealheiro para mobilar o melhor possível a casa.

Entretanto, aos serões, quer durante o verão ou no inverno, família e vizinhas da noiva preparavam a lã para o colchão dos noivos. Este era cheio com lã de ovelha que ia sendo toda desencarrapiçada para limpar as impurezas e ser mais macio.

Nas vésperas do casamento, a noiva abria as portas da sua futura casa para a mostrar às pessoas da Aldeia que lá quisessem entrar para apreciar o que a ela levava e recebia algumas prendinhas.

Ao noivo competia fazer a «boda» em casa dos seus pais. Logo pela manhã, os convidados podiam ir lá tomar o café e comer uns bolinhos de manteiga ou biscoitos.

Geralmente, os casamentos eram de manhã. Os convidados da noiva dirigiam-se a casa dos pais dela e os do noivo, a casa dos pais dele.

Formava-se um cortejo, a pé, até à Igreja Matriz. Geralmente, quem chegasse primeiro, esperava pelo outro, não tinha outro remédio! Talvez muitos corações temessem um arrependimento à última hora.

Não havia cânticos durante a cerimónia, nem sei bem porquê. Era um ato mais triste do que hoje é .

À saída da igreja, ainda no portal, os padrinhos da noiva e os padrinhos do noivo atiravam amêndoas que levavam numas bolsinhas, para as pessoas que os esperavam no adro para os verem, lhes desejarem felicidades e lhes atirarem pétalas de rosas ou malvas (sardinheiras).

Então, depois do ato consumado, iam todos os convivas para a casa dos pais do noivo para comemorar o enlace.

Às vezes, à entrada da casa dos pais do noivo, atiravam também algumas pétalas de flores aos noivos.

Ao almoço era servido o tradicional ensopado de borrego, um arroz doce, vinho e uns bolinhos. À noite era servida uma boa canja de galinha e um prato de galinha de fricassé ou galinha frita . E era tudo tão bom que ninguém tinha nada a dizer.

Chegada a hora de os noivos se recolherem, já alta noite, eram incomodados pelos convidados que lhes iam cantar «Os descantes». O noivo abria uma janela ou postigo para lhes oferecer uma garrafa de vinho fino e alguns doces .

No dia seguinte, chamado o 2º dia, todos os convidados podiam voltar a juntar-se aos noivos e comer dos restos da boda.

Tudo isto se foi perdendo mas é sempre bom recordar e haver alguém que nos possa dar a alegria de reavivarmos as nossas Tradições.

É o que está fazendo o Grupo de Danças e Cantares «Os Encantos do Alentejo» de Santa Eulália, numa sessão magnífica de fotografia realizada no passado dia quinze em Santa Eulália pelo meu amigo Jacinto César em colaboração com a grande artesã Joana Leal que confecionou os trajes, juntamente com Lucinda Miranda, Céu Peguinho e Matilde Anjos. A todos o meu agradecimento.