Trono Dourado

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Sentada no chão, tendo acabado de ver um filme sobre a teoria das cordas, comecei a olhar para as coisas (por hábito, ia dizer: a realidade) à minha volta e os meus olhos pousaram sobre o retrato de Ana Carlota, essa velha menina que respirou pela última vez num destes dias de Janeiro, de um ano lá mais atrás. Pequena, de ar frágil, mas tão forte e sábia, que temperou indelevelmente uma parte da minha infância. Era a minha avó da Rua Nova do Poente em São Vicente. Procurava eu olhar para além do retrato e ver as cordas, esses filamentos de energia que existem para lá das aparências. Os cientistas já não conseguem expressar os conceitos com que estão a lidar, apenas com o uso da linguagem científica, do latim e da matemática, há muito já que começaram a usar a linguagem poética, sobretudo a metáfora, o paradoxo e a dialética, ou oximoro dialético, se assim lhe quiserem chamar.

Olhava para o retrato de Ana Carlota, essa que não precisava ouvir para me compreender, num mudo e eloquente diálogo, e pensava: Qualquer dia calam-se. Qualquer dia os cientistas ficam em pura contemplação, emudecidos perante a deslumbrante realidade que já quase tocam. À volta de Ana Carlota começou a desenhar-se um trono de luz dourada, cordas, filamentos, e já estava viva. Foi quando me ocorreu (disse-mo ela?) que o que eu precisava fazer agora era criar um trono para cada ser humano, um lugar dourado onde não entrasse a doença, nem qualquer tipo de sofrimento, de onde todos pudessem contemplar a sua própria dor e a dos outros como uma suave brisa. E o trono dourado corresponde aos mais expressivos sonhos da infância. Quando lhe perguntei onde deveria guardar esses tronos, respondeu-me:Teoria das cordas

– Sobre o ar, o mais sólido elemento.

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Resposta decidida, alheia a qualquer tipo de argumentação. Ana Carlota nunca me desiludiu. Assim farei. 

Ocorreu-me então oferecer a esta rainha que me foi avó, sempre inclinada para o fogo do lar de onde extraía deliciosos aromas que transformava em sabores, a rainha de paus, em forma de agradecimento. Por tudo.

Trono dourado de Tutankhamon
Trono dourado de Tutankhamon

Encontrei-a a meio da respiração, esse trono de ar. Aqui a pouso.