Início Opinião Nuno Pires Turista por um dia: o que oferece Elvas a quem nos visita

Turista por um dia: o que oferece Elvas a quem nos visita

Igrejas do Salvador, São Lourenço, São Domingos: fechadas. Torre Fernandina, Cisterna da praça: fechadas.

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Igreja do Salvador, Elvas
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“Poucas cidades portuguesas têm um centro histórico tão antigo e tão autêntico. O viajante que avista a cidade de longe impressiona-se com as compactas cortinas de muralhas, mas não suspeita da riqueza do núcleo medieval. Essa é uma tendência paradoxal mas significativa: quanto mais importante é um centro histórico, menos a cidade se preocupa com ele. Nas cidades, como nas pessoas, quem mais quer parecer fidalgo é quem o não é. Que pena o pouco caso que Elvas faz do seu passado!”, escreveu José Hermano Saraiva, algures no verão de 1996, num suplemento do semanário Expresso dedicado à nossa cidade. Mal suspeitava ele, ou talvez suspeitasse, que a cidade raiana viria a ser classificada pela UNESCO alguns anos depois.

Com a hora mudada, a primavera renascida e a Semana Santa à porta estão reunidas as condições ideais para que se intensifique o fluxo de turistas de visita ao burgo e resolvi vestir-lhes a pele e descobrir o tal centro histórico e a experiência vivenciada por quem chega até nós.

Nada como ir ao terreno para falar com propriedade.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

Tomei a direção da parada do Castelo, surpreendendo-me as dezenas de pessoas que já cirandavam por aquelas paragens. Estacionei numa concorrida parada do Castelo encontrando aquele monumento, bem como o Posto de Turismo contíguo, aberto ao público. Bom começo.

Do miradouro, um céu salpicado de nuvens mostrava Badajoz ao longe, mas também todo o casario da cidade que se acastela no interior da cerca fernandina com os fortes à espreita.

De cortar a respiração.

Tomei a direção da mais antiga artéria de Elvas, a Rua das Beatas, com os seus bonitos vasos de flores e o relaxante som da água do depósito que provem da estreita travessa que dá acesso ao largo da Alcáçova. Aí chegado, bati com o nariz na porta. A que se julga construída sobre o monumento mais antigo de Elvas, a igreja da Alcáçova, encontrava-se de porta fechada e sem qualquer indicação.

Desci para o Arco do Miradeiro, passei ao decrépito Comando Geral (em cuja fachada uma placa continua a prometer-nos a criação do Centro de Artes e Ofícios do Património), continuei encosta abaixo e apenas o Cemitério dos Ingleses podia ser visitado, contrariamente às igrejas de São João da Corujeira e dos Terceiros, cujas portas estavam fechadas.

Mais abaixo, São Pedro: fechado. Subi a rua do mesmo nome, largo do Salvador, passei à ainda encerrada Casa Judaica, desaguei na Praça da República com as esplanadas bem compostas de clientes e a Antiga Sé de portas abertas. Do mal, o menos. Mais acima, a Igreja das Domínicas, uma das pérolas do património religioso elvense também cumpria a sua missão: aberta.

Igrejas do Salvador, São Lourenço, São Domingos: fechadas. Torre Fernandina, Cisterna da praça: fechadas.

A igreja da Misericórdia tinha as portas abertas, mas estava em limpezas, justificadamente, já que na semana que se avizinha será palco das principais procissões da quadra.

Os Museus mantinham, também as portas abertas, permitindo visitas.

Afinal o que é que falta? Que consciências é preciso despertar? Desconheço os responsáveis, não é isso que me move, destaco apenas que, tal como escreveu um dia José Hermano Saraiva, a beleza do centro histórico de Elvas é ímpar, mas só isso não chega, falta dar-lhe vida, disponibilizá-la a quem quer conhecer-nos.

Numa cidade com uma taxa de desemprego tão elevada talvez pudessem criar-se umas dezenas de postos de trabalho dando vida aos monumentos e aumentando a oferta turística a quem nos visita. Seria ou não muito mais interessante ver todos os monumentos de portas abertas? Gastou-se dinheiro em recuperá-los para quê?

Com mérito conseguimos conquistar a galinha dos ovos de ouro, falta a capacidade de dela tirar partido. Se queremos fazer do turismo o motor de crescimento da nossa economia, temos de investir nele sob pena de perdermos o saco e o atilho.

Convido os mais céticos a repetirem o percurso, ver para crer, já dizia São Tomé.

Venha o borrego. Boa Páscoa.

Palavras leva-as o vento.

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Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, nasceu em Elvas em 1975 e é um alentejano orgulhoso das suas raízes. Gosta de escrever – sempre gostou. Começou por pequenas histórias, onde os amigos de infância eram os protagonistas, passando pelo blog Dualidades (asdualidades.blogspot.com) do qual foi coautor e onde abordava temas que marcavam a actualidade. Cativam-no as relações humanas e a interacção entre as pessoas; é sobre elas que escreve. Tem participado e vários concursos literários tendo ganho uma menção honrosa no prémio Glória Marreiros, organizado pela Câmara Municipal de Portimão, com a novela "Amor entre muralhas" escrita em parceria. Participou na colectânea "Ei-los que partem" da editora Papel d' Arroz e com a chancela da Chiado Editora editou o seu primeiro romance, "Searas ao vento". Colaborou com a TV Guadiana, publicando semanalmente, pequenas histórias da sua autoria e incorpora o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de Barbearia" do blog Três Paixões.