Morreu José Mário Branco
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Opinião de Graça AmiguinhoPartir é sempre sinal de surpresa, dor e tristeza, para quem fica.

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E com saudade se vão revelando as recordações que ficam de alguém que nos deixa.

Hoje, parte um grande vulto da música portuguesa, mas, sobretudo, uma alma cheia de ideais!

José Mário Branco foi um homem inconformado e sempre disposto a querer fazer deste mundo, um mundo melhor.

Nasceu no Porto em 1942, filho de professores, estudou História nas Universidades de Porto e Lisboa, curso que não terminou. Os seus sonhos iam para além dos livros. A música, a composição, e a escrita, foram as suas grandes paixões.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Na minha memória, falar de José Mário Branco, é falar da Revolução de Abril, pois as suas músicas de intervenção ficaram para sempre nos nossos corações e na História do nosso Povo.

As opiniões são unânimes ao afirmarem que foi um dos maiores artistas da música portuguesa dos sécs. XX e XXI.

Militante do Partido Comunista Português, durante o Fascismo, a Ditadura obrigou-o ao exílio em França, para onde fugiu em 1963, regressando a Portugal, só em 1974.

Autor de inúmeras obras musicais, lembro o sucesso do álbum emblemático «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», publicado em 1971, ainda na clandestinidade.

A sua ação foi muito alargada, desde produtor, compositor, intérprete e letrista, conseguindo, com a sua arte, influenciar a música portuguesa moderna e até a mais antiga, como o fado, primando sempre pela qualidade e exigência, nunca abdicando dos princípios que defendeu.

Pegando nos acontecimentos populares, dava-lhes a volta, tornando-os verdadeiros movimentos de intervenção, para defender os trabalhadores e os que tinham mais dificuldades em ter uma vida digna.

Numa das suas canções mais interessantes-«Emigrantes da quarta dimensão» escrita em 1990, uma parte da letra diz isto:

“‘Dá-me uma ajuda, ó médico das almas/ Para escolher em que combate combater / Quem condeno eu à vida / Quem condeno eu à morte / Que me podes tu dizer / Encostado à árvore do tempo / Folhas vivas, folhas mortas, estações’, com uma melodia lindíssima.

Alma de uma generosidade que não guardava apenas, para si, os seus talentos, mas os sabia repartir com outros grandes músicos do seu tempo.

Com José Afonso partilhou « Cantigas do Maio e Venham mais cinco».

A sua música mais ligada ao 25 de Abril foi «A Cantiga é uma arma» que a nossa geração aprendeu e cantou.

Pela força das suas música e letras, teve um papel importante para que a Revolução dos Cravos acontecesse e houvesse grandes mudanças no nosso Portugal.

Ficará para sempre na nossa memória, a sua atitude firme perante a vida, um homem progressista, sem ser exagerado, um intelectual, mas de mente aberta e generosa.

Que o seu exemplo seja seguido e permaneça bem acesa, entre nós, a chama da sua forma de encarar o mundo e viver a vida.