Um Ano de Vida

Paula Freire, opinião
   Pub   
   Pub   

Um ano de vida é toda aquela porção de nós, onde cabe uma soma de muitos e pequenos valiosos momentos que nos permitem ser quem somos.

Um ano de vida foi um espaço que nos recebeu no nosso verdadeiro mundo.

É sempre um balanço de um percurso que nunca fizemos sozinhos, independentemente de termos conseguido sentir quem lá esteve.

 Pub 
 Pub 

Um caminho habitado por dias compridos, por um chão repleto de estórias, pela nossa música interior, pela ternura ou azedume das nossas palavras e gestos, pelo que fizemos e deixamos de fazer, pelos erros e fracassos, pelas conquistas e vitórias, pelos sons e pelos silêncios, pelos abraços e pelas perdas.

Pelas pessoas que nos fizeram acontecer. Um dos mais importantes e singulares plurais que faz nascer a escuridão ou a claridade que nos mora cá dentro.

Esta semana, o balanço do meu ano de vida trouxe-me emoções desprevenidas. Porque é quando nos dedicamos, genuinamente, à tarefa de casar o pensamento com o sentimento que, às vezes, nos apercebemos do rumo feliz que, afinal, os nossos passos foram capazes de seguir.

Um Ano de VidaEmocionou-me saber que não estive só. Emocionou-me reconhecer a presença das pessoas que por mim passaram e me deixaram ficar pedacinhos especiais de si, como uma flor que depositaram, docemente, nas incertezas de muitos dos meus dias. Que (se) ofereceram gratuitamente, que (me) abrigaram e ensinaram a não ter medo de tantos escuros.

Pessoas que foram capazes de me olhar nos olhos, de me ler o coração, de me beijar com as mais simples palavras. Pessoas que não trilharam a mentira de querer mostrar serem melhores e mais felizes em cada instante, como se vivessem permanentemente numa peça de teatro.

Estas, não são pessoas conhecidas de palcos e outros palanques. Talvez quase ninguém lhes bata palmas e muito menos se digne fazer-lhes uma vénia.

Porque são pessoas que não querem nada em grande, não precisam de mil amigos nem de mil tarefas para anestesiar os vazios da solidão escrupulosamente mascarada.

Há quem possa apontar-lhes o dedo e dizer-lhes, de sorriso irónico estampado nos lábios, que não ajudam a transformar o mundo.

Mas ajudaram a transformar o meu.

E se cada um de nós tivesse, em si, essa capacidade de ajudar a fazer sorrir o mundo de apenas alguém, não haveria espaço na terra para que tantos se sentissem ninguém.

Um ano de vida é sempre o balanço sobre o que está ainda para além da porta que acabou de se fechar.

E o balanço do meu ano de vida foi, sem dúvida, a prenda mais bela que recebi.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

Artigo anteriorSeca | Chuva em Portalegre foi “surpresa”, mas tempo quente ainda ameaça
Próximo artigoAntiga Escola Superior de Saúde de Portalegre vai ser jardim-de-infância
Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.