Estremoz
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroAntónio Telmo, filósofo que o Alentejo adoptou durante uma parte significativa da sua vida, reflecte, na sua obra, a planície onde veio a casar, criar filhos, trabalhar, conviver e escrever. E morrer.

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Foi Estremoz o palco da sua vida nas últimas décadas, e a cidade entranhou-se de tal modo em si, que aparece com frequência na sua obra poética, ficcionada e filosófica. E, como é característica sua, frequentemente os géneros se entrelaçam, sendo que o intento é predominantemente filosófico. Como não separa, na sua concepção, o pensamento da inspiração, o raciocínio da divagação ou a razão da poética, a tal ponto que ficou conhecido como o filósofo da “razão poética”, frequentemente encontramos no mesmo texto ficção, poesia e filosofia. Tal como realidade e imaginação, em doses e modos tão bem integrados que não há como saber ao certo onde começa uma e termina a outra.António-Telmo

Em diversos textos refere a existência de um «antiquário de profissão com loja aberta em Estremoz, aqui conhecido pelo nome de Tomé Natanael». Este antiquário pode ser encontrado na sua loja «a polir uma lente num velho engenho». Com um pedaço de flanela! Ao que chega o pormenor.

Coloca na boca de Tomé Natanael, nome que é anagrama de António Telmo, aliás dito pelo próprio antiquário, as seguintes palavras:

«Comprei este engenho na Holanda por tuta-e-meia. Deve ter pertencido a Espinosa».

Claro que neste momento qualquer leitor já decidiu que se trata de pura ficção. Um engenho que pertenceu a Espinosa na loja de um antiquário em Estremoz, pertence ao universo do improvável.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Tanto mais que num dos textos (são vários) em que este é referido, o narrador/autor/personagem/Telmo é treinado por ele para entrar numa reprodução da Escola de Atenas, de Rafael, numa sequência de episódios apresentados como sendo umas vezes sonho e outras realidade em interacção perfeita.

Curiosamente, o próprio Tomé Natanael é leitor de Álvaro Ribeiro, o filósofo cabalista que Telmo considera seu mestre. O nome do antiquário é formado por um nome cristão (Tomé) e por um segundo judeu (Natanael), coerente com a linhagem de Telmo, a sua herança espiritual pela parte dos progenitores, sendo de assinalar que a linha paterna vem de Campo Maior.

Telmo regressa várias vezes à loja na tentativa de decifração de um desafio colocado pelo enigmático antiquário.

Em diversos textos tanto é sugerido ser Tomé Natanael verdadeiro como ficcionado.

FILOSOFIA-E-KABALLANo mundo dos acontecimentos normais, Tomé Natanael não existe, ao contrário do que, por vezes, o autor se propõe convencer o leitor.

Mas um dia, na minha realidade, um pintor que conheceu Telmo afiançou-me da existência de Tomé Natanael. Nesse momento eu própria me senti dentro da pintura de Rafael, embora depressa tenha voltado a sair. Não é muito recomendável entrar no universo das pinturas, sobretudo naquela representando dois pesos pesados como são Aristóteles e Platão.

Neste momento não sei dizer se acredito ou não na existência de Tomé Natanael. Resolvi contar aqui esta história na esperança de que algum leitor possa ajudar-me a deslindar este enigma.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.