Paula Freire, opinião
   Publicidade   
   Publicidade   

Todos os anos, no dia do aniversário dela, a lembrança avivava-lhe a memória…

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

Não era apenas nesse dia. Recordava-se dela sempre, sem paragem no tempo. Um feito que antes nunca acreditaria ser possível. Mas existem pessoas assim. Pessoas que em nós se encerram como madrugadas anunciadas que não mais voltam a adormecer. Um doce lume que nos incendeia e, todavia, nos dá vida.

Ela era esse anjo que, ironicamente, o queimava por dentro. Inesperada e teimosamente, no perfume da paz que lhe trazia, obrigava-o a um encontro no espelho com todos os seus demónios. Tornara-se-lhe difícil compreender a ambivalência deste sentimento do qual nunca mais se livrara. Um misto de punição e deleite, talvez.Um Brinde a Ti Paloma

Por isso, era só nesse dia, quem sabe como se oferecesse também um presente a si mesmo, que se permitia deixá-la pousar-se-lhe, livre, sobre as linhas do pensamento.

Poucos sabiam, como ela, do coração de menino que lhe habitava o peito, das ânsias e sombras adormecidas nas paredes interiores do seu mundo. Mas todos lhe conheciam o génio forte e desbravado, as manias imprevistas que o deixavam ausente dos outros em horas mortas. Como tal, não lhe estranhavam a ausência, todos os anos, nesse dia.

Pela noite dentro, portas trancadas ao mundo, a solidão do escuro na sala e na alma. Apenas uma garrafa de vinho solta na mão e o brilho da lua por companhia. Os passos, conhecia-os de memória. Aproximava-se da janela como se tivesse um receio tolo de que, em algum lugar, ela lhe adivinhasse as emoções. Prendia o olhar no infinito e, nessa intimidade cúmplice que partilhava somente consigo, pedia emprestada aos mistérios da noite, uma poesia para lhe oferecer. Sabia que essa seria sempre a penda mais linda, e única possível, que conseguiria alguma vez conceder-lhe.

Uma lágrima, lenta e mansa, teimava nas curvas do mesmo caminho. Tão pobre se sentira quando, incrédulo, percebera que ela acreditara mais nele do que ele próprio alguma vez conseguira. Pois tão mágicas lhe soaram aos ouvidos, as palavras com que ela o abençoara: “se um dia entrasses nos meus olhos, encontrarias a beleza que vejo dentro dos teus”.

Não precisava de mais vozes, bastava-lhe apenas a dela. E a sua, a contar-lhe que a vida é o produto de todas as escolhas. E o medo, um dia, decidira por ele.

Preso ao luar, erguia o copo no ar. Um sorriso salgado nos lábios.

– Um brinde a ti, Paloma!…

No seu coração de criança, gostava de acreditar que, num longe distante, o vulto da mulher que passou, feliz, pelos seus sonhos sem lhe dizer adeus, escutaria esta oração.

Quem sabe, talvez ela escute. É que o maior perdão… é feito de silêncio.

Artigo anteriorPSP | Comando Distrital de Portalegre da PSP entrega 464 armas para destruição
Próximo artigoEstudo conclui que a diabetes dificulta o tratamento de infecções dentárias
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.