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Vivi em Santa Eulália até aos dois anos, idade em que parti do Alentejo para terras da Estremadura. Passámos então a ir nas férias a S. Vicente, onde nasci, o Povo, como toda a gente dizia, onde viviam os meus avós paternos e maternos e onde estava quase toda a família. No quintal do meu avô materno a dar para a planície, aprendi com ele a acertar num alvo com uma câmara-de-ar. Sendo pacifista já então tal como o meu avô, o prazer não era o de abater, mas o de acertar. Também um grande filósofo português contemporâneo, António Telmo, que embora não sendo alentejano viveu no Alentejo, principalmente em Estremoz uma parte significativa da sua vida até à morte, em 2010, tinha, ainda mais do que eu, não apenas o gosto por acertar num alvo, mas acima de tudo o talento para o fazer. Tanto, que os meninos da sua idade lhe chamavam o “Guilherme Telmo”, porque costumava colocar maçãs sobre a cabeça dos companheiros para lhes acertar com uma fisga. Este particular talento levou-o ao gosto pela caça, não pelo prazer de matar, mas de acertar. Mais tarde isso iria tornar-se tão doloroso que acabou por abandonar a caça e estabelecer uma relação de arrependimento amoroso com todos os pássaros que lhe apareciam no quintal. O que é curioso é que este filósofo nascido em Almeida e descendente dos “Carvalho dos Santos” por parte da mãe, e dos “Vitorino” de Campo Maior por parte do pai, relata nas suas “Páginas Autobiográficas”:

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“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

«Quando eu era criança de seis anos de idade, vivi em Alter do Chão na casa de uma tia irmã do meu Pai, então em África, passando os dias inteirinhos no quintal ensoleirado a andar de triciclo e a aprender a imaginar que, com uma erva cujo suco, uma vez esfregada ela na cal branca da parede, fazia uma tinta verde, tracei, e não sabia de onde na minha alma a trazia, nessa parede a figura da rosa-dos-ventos que é afinal o quadrado em que se combinam a cruz direita e a cruz em X.»

Este quadrado há-de transformar-se em rectângulo e constituir o gérmen a partir do qual construirá uma parte significativa do seu pensamento filosófico. Neste mesmo texto, um pouco antes, António Telmo relacionara esta figura geométrica com o jogo do galo, que antigamente era muito popular e podia ser jogado desenhando a figura em qualquer superfície e até mesmo no chão e onde os jogadores teriam de pôr o seu sinal e impedir o outro de o fazer, em três casas consecutivas. O texto articula um interessantíssimo rendado de raciocínio que aqui não reproduzirei, pela extensão que constituiria neste texto, onde chega ao desenho em forma de X do pé de galo. O mesmo X com que se escreve, em grego, a primeira letra do nome de Christo, também designado como o “Sol Invictus”.

Tudo isto por causa dos quintais no Alentejo, um em Alter do Chão, tantos anos antes, outro em São Vicente, mas ambos cenários de aprendizagem dessa nobre função humana que é a imaginação e que, informalmente, eu e ele tivemos a sorte de aprender a desenvolver como Sol interno. O alvo que o meu avô me apresentava para treinar a pontaria era circular. A figura que o menino António Telmo desenhava na parede alva era também, de certo modo, um alvo, mas quadrado. Estes alvos estavam orientados para o futuro produzindo nele aquilo a que Telmo viria a chamar, na sua obra, a “Razão Poética”, e no meu caso verdadeiros delírios imaginativos sem fim, como esta crónica tende a ficar se eu não lhe puser já um ponto final. É o efeito da planície alentejana observada por duas crianças a partir de quintais a tender para o infinito.