Serviço Nacional de Saúde
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Opinião de Graça AmiguinhoNão tenho por hábito meter foice em seara alheia, mas quando o campo a ceifar é de todos e foi criado para todos dele usufruírem com a maior dignidade, não posso ficar indiferente, pois todos estamos sujeitos, em qualquer momento, a ter necessidade de recorrer ao Serviço Nacional de Saúde, uma conquista de Abril, ao dispor de ricos e pobres.

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Digo, indiferente, porquê?

Porque nos últimos oito anos, vezes sem conto, acompanhei o meu falecido esposo em consultas de rotina e urgências. Se, muitas dessas vezes, foi tratado com sabedoria porque encontrou no caminho profissionais competentes e preocupados em enaltecer as suas funções como servidores do Estado, outras vezes surgiram algumas situações que calámos no momento e aceitámos com alguma passividade, as quais deixaram muito a desejar.

Os bons profissionais, em qualquer área de trabalho, são a chave do sucesso e do bem-estar da sociedade que os rodeia.

Lidar com massa humana exige, para além da competência, discernimento, simpatia e humanismo.

Para que qualquer trabalhador se sinta feliz no seu posto de trabalho e possa dar o melhor rendimento, há condições que são fundamentais: bom ambiente humano e físico, materiais e acessórios disponíveis, remuneração compatível com as funções e responsabilidades assumidas e ainda, horários de acordo com a legislação.

Depreende-se que, qualquer médico ou enfermeiro teve uma preparação cuidadosa, durante os largos anos de estudo, para que tenha os conhecimentos indispensáveis e uma capacidade de análise de cada caso, eficiente, e por vezes, até, um poder de decisão rápido, para a resolução de situações inesperadas e graves que podem pôr em causa a vida.

Como muitos dos pressupostos considerados normais, não dizendo que sejam os ideais, em muitos dos nossos hospitais, não são minimamente atingidos, muito tem que mudar no país.

Qual o atual panorama da classe que nos trata da saúde?

Para terem uma vida com algum desafogo, em Portugal, muitos destes profissionais chegam ao fim de um dia de trabalho esgotados, porque, para além do serviço normal que têm que fazer, têm os seus consultórios, outros trabalham em Clínicas privadas e ainda há os que acumulam o serviço com aulas nas Faculdades.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Um dia só tem 24h e, para muitos destes profissionais, precisaria ter o dobro, para responderem aos compromissos assumidos, terem tempo para descansar e ainda para conviver com a sua família.

O corpo não suporta tal azáfama e o cansaço é inimigo da perfeição e do cumprimento das responsabilidades.

Perante estes casos que apontei, só têm uma solução: sobrecarregarem os mais novos, impossibilitando-os de fazer um trabalho aceitável e com qualidade.

Outra forma de muitos profissionais se libertarem das más condições de trabalho que têm, é optar por trabalhar no estrangeiro, oferecer por lá a formação que todos nós pagámos para que se especializassem em Portugal.

Não podemos condená-los, porque sabemos que em qualquer outro país têm melhores condições de trabalho e melhores remunerações.

Somos nós, utentes do Serviço Nacional de Saúde, que ficamos mais pobres, mais mal servidos, restando por aqui, uma camada de profissionais que tenta sobreviver, fazendo quanto menos, melhor, e não pondo ao serviço da comunidade todas as suas competências e capacidades.

Qual o melhor caminho?

Haverá luz que se vislumbre para que todos possamos, nos momentos de maior fragilidade, saber que seremos tratados como merecemos e não abandonados em qualquer cama, sem que ninguém repare que o oxigénio de que precisamos, não o estamos recebendo, porque a garrafa esvaziou e ninguém reparou, ou que caímos da cama, nos ferimos e nos vão mandar de volta a casa, sem sequer verem que sangramos?

Queremos ser tratados com dignidade até ao momento final e não abandonados e deixados ao acaso.

Para que isto seja uma realidade é fundamental olhar com outros olhos para quem trabalha e valorizar o seu trabalho, despertando consciências.