Serra-D'Ossa
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Opinião de Risoleta C Pinto Pedro(Vénus na Serra d’Ossa)

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Na primeira crónica de Março, ainda o estado de emergência não tinha sido declarado, referi aqui um texto do filósofo António Telmo, “Diálogos do Mês de Outubro”, do livro Capelas Imperfeitas, o décimo e o mais recente das suas Obras Completas. Falava sobre a Serra d’Ossa. Também a passagem que trago hoje é alusiva à mesma. A propósito de Vénus, que ali, segundo ele, é designada pelos camponeses  como «a estrela do pôr do dia». Refere, a personagem do diálogo, que o aspecto com se apresenta «prenuncia outra bela tarde para amanhã».

Na situação que hoje vivemos, precisamos de alguma disciplina para nos levantarmos do computador, do sofá ou de qualquer outro lugar onde ocupemos os dias, para irmos à janela ver como se apresenta o sol de manhã, como está o céu, como se movimentaram as nuvens, como evoluiu o sol no firmamento e para fixarmos, como diz Telmo, «o brilho lúcido» de Vénus. Vénus

Lembro-me dos fins de tarde nos quintais dos meus avós, um na parte mais baixa da aldeia, a meio da Rua do Lavadouro, e o outro ao cimo da Rua Nova do Poente. Dali via o sol a pôr-se, e mais tarde, já no escuro, as estrelas todas do céu. Eram tantas que eu achava que eram mesmo todas, que para além do meu olhar não havia mais. O mundo acabava ali, nas estrelas que eu via. Era um mundo finito, e ainda assim imenso, quase assustador de tão grande. Talvez fosse uma sorte considerar que para além daquelas estrelas não havia mais nada, eu não aguentaria.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Hoje, numa casa com o Tejo ao fundo e o castelo de Palmela do outro lado, obrigo-me a levantar para ir à janela ver o rio, o céu, a lua, as estrelas e fixar o «brilho lúcido» de Vénus que os antigos «situavam no terceiro céu». O que significa que em pequena eu conseguia ver, no mínimo, três céus, pensando que era todo o mesmo. Desconhecia que existia uma hierarquia nos céus e nas estrelas. Mais tarde, voltei a ver o céu da Serra d’Ossa, sabendo já que aquela parte que eu via era uma pequeníssima parcela de céu, talvez como o bico de uma agulha, ou menos ainda.Serra-d'Ossa-2

Estamos a viver tempos que, não sendo fáceis, num mundo onde tudo é relativo, vão da simples contrariedade por termos de estar confinados, ao maior perigo e exaustão, como é o caso extremo dos profissionais de saúde e dos doentes e dos que morrem e de suas famílias.

Mas se olharmos regularmente da varanda ou da janela e com sorte, do quintal, a «estrela do pôr  do dia» e as outras, e o sol e as nuvens e a lua, se elevarmos o olhar nem que seja para ver uma nesga de azul ou de cinzento, consoante se apresentar o céu, se não perdermos o momento do dia em que o «brilho lúcido» de Vénus nos pode iluminar por dentro, tudo vai ter outra qualidade, porque nesses momentos sentiremos que não estamos sós, que algures, no terceiro céu, uma estrela lúcida nos fixa. Troquemos olhares com ela, e quando tivermos mesmo de ir á rua por razões de extrema necessidade, troquemos olhaes uns com os outros, que isso não mata, embora contagie, ainda que de um contágio bom. Fixemos-nos uns aos outros de longe como estrelas lúcidas brilhando a partir de um terceiro céu, e continuando a seguir António Telmo: «para nos recolhermos debaixo das telhas». Continuando:  «vamos criar durante alguns minutos um silêncio absoluto em nós, para que na nossa alma se imprima aquela lucidez que transportaremos connosco».