Um Tempo Entre Compromissos e Alfinetes

Um Tempo Entre Compromissos e Alfinetes
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Com o atual ano letivo das nossas crianças e jovens a terminar ou em vias de conclusão, há sempre um pensamento que, por estas alturas, me visita. Um pensamento associado a paz, a tranquilidade, a repouso, ao dolce far niente.

Um pensamento que me leva à minha infância e adolescência quando, em período de férias escolares, o tempo era mais longo e tinha um outro sabor que não se encontra mais nos dias de hoje.

Sem horários, sem exigências maiores. Dias e horas vividos numa agradável e despreocupada ociosidade que, ao contrário do que se vai professando por aí, não matava nem embrutecia ninguém. Pelo contrário, dava vida, revigorava as energias esgotadas.

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Lembro-me bem do quanto eu gostava de namorar com o silêncio. Ainda hoje gosto. Sentada num tronco de árvore, a ler um livro de aventuras, enquanto a imaginação viajava por tantos mundos distantes.

Ou de caneta em punho a rabiscar palavras e frases sem regras, para fazer caretas ao português, mas onde mais tarde descobri a magia dos poemas. Ou a desenhar imagens a que dava forma e cor numa dança artística com as sensações do momento.

Ou ainda, preguiçosamente recostada num sofá, a apreciar com todos os sentidos inconscientemente alerta, um qualquer filme western ou de ficção científica, que me conduzia a muitos paraísos passados e futuros.

Era isso mesmo, com todos os sentidos em atividade. Porque além da visão e da audição em vigilância permanente, as mãos tocavam a textura cítrica dos caramelos de fruta que me iam adoçando a boca e o nariz respirava o aroma aprazível dos refrescos de cevada com sumo de limão, que o paladar tão bem degustava, ao longo dessas sessões de cinema caseiro.

Um Tempo Entre Compromissos e AlfinetesFérias era aquela quietude demorada que nos concedia a harmonia necessária para aprendermos quem somos. Que nos ensinava a gostar da leveza da vida e que nos ajudava a encontrarmo-nos connosco mesmos; nos levava a apaixonarmo-nos por instantes raros de placidez e, consequentemente, a desejarmos trazer para o nosso regaço um pouco da nossa arte particular, um tanto mais de uma música própria, um pedacinho renovado de palavras e brincadeiras que nos agasalhassem o cansaço dos restantes meses do ano.

E eram estas as verdadeiras férias da escola. Férias de relaxamento. Férias com a frescura da indolência. Palavra de origem latina, indolentia, que significa, precisamente, “ausência de dor”.

Sim, porque a escola, por vezes provoca isso mesmo, dores. Dores amargas, dores do corpo cansado, dores da ansiedade de cada dia, dores da pressão sentida, dores do amor e desamor nas relações vividas, dores de cabeça, dores e dissabores.

Pois, apesar dos mil e um desejos dos que a concebem, não é um mundo encantado e nem sempre todos estão com paciência, disponibilidade e vontade de o tornar mágico. Porque há mesmo muito em que pensar e o que fazer, que vai bastante para além da magia e do impossível.

E depois, ofuscados pela necessidade definitivamente instalada dentro dos ossos, de viver em ebulição, nem nos apercebemos que as crianças e jovens de agora nunca estão efetivamente de férias, ainda que não estejam em período de aulas.

O mais interessante é mesmo observar o quase desvario associado à preocupação antecipada em encontrarmos formas de ocuparmos as férias dos miúdos.

Muita coisa parece existir ao gosto de cada freguês, distribuída por uma panóplia de atividades que variam entre clubes, oficinas e workshops diversificados, passando por circuitos desportivos e outros que tais e por aulas de lazer e descontração nos mais variados moldes e modelos. Tudo a prometer grandes, criativos e animados desafios capazes de desenvolver inúmeras e novas competências e estimular as mais diversas sensibilidades.

Há espaço para tudo e mais alguma coisa menos para desacelerar, para deixar ficar ao ralenti, para meter ponto-morto, como se ao fazer isso, cada criança e jovem desatento ficassem à mercê de fazer marcha-atrás.

Não há tempo para descansar as emoções, para abrir as janelas do corpo e da mente e para inspirar e expirar com profundeza.

Tempo para compreender que o substancial da vida não se constrói unicamente pela aquisição das aprendizagens mais clássicas do saber e que o conhecimento que se reflete no nosso interior, também é resultado de todo esse espanto que emerge da capacidade de constatar e sentir, desprendidamente, as trivialidades do dia a dia.

E que através delas também podemos aprender a contemplar, a intuir, a imaginar, a criar e a transformar com a garantia de nos abrirem os horizontes para possibilidades infinitas.

Para bem da nossa saúde mental, valeria a pena ponderar que, entre os compromissos do ano inteiro que nos abafam a respiração e os alfinetes que nos espetam o coração, as férias deveriam ser, para eles e para todos nós, um tempo sem medida de tempo.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.