UMA AVÓ E UM POETA

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Que poderão ter em comum um poeta de Castelo Branco e uma avó da aldeia de S. Vicente, mesmo ao pé de Elvas?

Para além de viverem ambos na proximidade de Espanha e não assim tão distantes um do outro, quase tudo os separa, mas algo de essencial os une.

Fogo de chão - AvóAna Carlota está no meu sangue, é a mãe do meu pai e partiu já há umas décadas, numa noite, silenciosamente, sem avisar ninguém. Deixou um sorriso com que recebeu a manhã que a revelou morta. O mesmo sorriso com que sempre me presenteou, mas que abandonava quando, interagindo com os adultos, sentia que tinha de defender os seus direitos. Era muito assertiva, como hoje se diz, e talvez o facto de ter ficado completamente surda na sequência do seu primeiro parto, contribuísse para alguma desconfiança e necessidade de afirmação, hoje dir-se-ia assertividade. Era um lado do seu carácter que admito que existisse, mas que nunca senti. Para mim, era uma doçura em forma de avó. Pequenina, cheia de dores e com a ossatura toda deformada, da coluna às mãos, mas imparável. Trabalhava todo o dia como uma formiguinha, mantendo a casa acima do impecavelmente limpo, acima do perfumado, acima do acolhedor, cozinhando deliciosos pratos e conversando incessantemente comigo, enchendo-me de atenção e mimos. Íamos ao ribeiro onde ela lavava a roupa, fazíamos colares com as camomilas de um campo quase cinematográfico que havia mesmo ao cimo da sua casa, e eu brincava infinitamente no quintal enquanto ela cozinhava no antiquíssimo lume de chão que à porta das traseiras perfumava e consolava casa e arredores.

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Para além do desconforto físico, tinha com ela uma inconsolável dor por duas filhas mortas pouco depois da nascença, e outra já em idade adulta após longo e prolongado sofrimento e quem cuidou enquanto foi necessário. Mas nunca lhe ouvi uma queixa nem um queixume, apenas lhe vi sorrisos e ouvi graças. Era esta graça que a sustentava com as orações que a via pronunciar, junto das imagens de que era devota, sem que alguma vez tivesse tentado doutrinar-me. Era profundamente crente. Creio ser isso que explica o sorriso com que partiu. Aspergia-me com água benta e cozia-me pequenas medalhas e símbolos místicos por dentro dos vestidos. Posso, por isso, dizer com toda a propriedade, que sou, literalmente, abençoada. Mostrava-me pássaros multicoloridos que pintava, mas nunca a vi nessa actividade. Acredito que o fazia quando se encontrava sozinha.

Que tem Ana Carlota a ver com António Salvado, poeta de Castelo Branco e do mundo? É dele, não sendo ele um poeta religioso ou místico, o poema em que revejo a vida interior da minha avó, o seu sorriso vencedor sobre toda a dor:

«perdida a luz, Senhor,
o brilho do Teu Ser
existe na minh’alma».

Camomilas


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.