Início Opinião Graça Amiguinho Uma chinesinha em Portugal

Uma chinesinha em Portugal

A pequena Li veio de longe, muito longe, talvez nem tenha a noção dos quilómetros percorridos, da distância que a separa da terra onde nasceu.

Hoje, percorre ruas e caminhos, cujos nomes não sabe pronunciar, nem sequer ler. A sua linguagem é tão diferente, a sua escrita é outra.

Chegou à escola e sente que o seu respirar é igual ao das outras meninas, mas a sua pele é ligeiramente mais clara, os seus olhos mais alongados, os seus cabelos mais lisos.

Sente-se acolhida com ternura e procura relacionar-se da melhor forma pois, veio para ficar, não é uma turista que chega e, passados dias, volta ao seu país.

Os pais trabalham de manhã à noite, quase não param, com o desejo enorme de fazer vida neste país distante que os cativou e lhes proporcionou os meios para aqui se estabelecerem e fazerem os seus negócios.

A pouco e pouco se vai integrando, embora não seja muito fácil, aprender português. Mas segue com interesse e uma vontade indomável, as conversas das suas companheiras que também acham interessante os costumes da sua nova coleguinha.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Foi preciso vir uma professora que conhece o «mandarim» para ajudar Li a integrar-se e a aprender uma nova língua, a língua portuguesa.

A pequenina Li acha muito invulgar o que vê na sua escola. Há preparativos para uma festa, até então desconhecida para ela, à qual ouve chamar de «Natal».

No seu pensamento surge uma catadupa de interrogações sobre o seu significado. Nada sabe sobre esse «personagem» tão adorado por todas as suas companheiras.

Sobre o «Pai Natal» já ouvira falar, pois lhe foi dito que era um senhor muito generoso que gostava muito de crianças e ia no seu trenó, puxado por lindas renas, distribuir brinquedos e doçuras. Uma figura simpática, um velhinho gordinho, de barbas brancas e longas, sempre vestido de vermelho, que aparece por todo o lado e até desce pelas chaminés, uma vez por ano, para colocar um presente nas casas onde há crianças.

Mas daquele «Menino» tão lindo, de bracinhos erguidos a querer abraçar todos, sem roupa, deitado numas palhinhas, aquecido por um burrinho e uma vaquinha, com a sua Mãe olhando para ele e um velhinho, de cajado na mão, sempre sorrindo, nunca ouvira falar.

Muito admirada ficou a Li, ao ver o carinho com que as suas coleguinhas trazem as figurinhas de pastores, ovelhas, lavadeiras e três senhores muito bem vestidos, montados em camelos, com coroas de reis e roupas brilhantes, para colocarem junto da cabaninha onde está o «Menino» deitado.

Tudo era novidade para ela. E mais admirada ficou, quando a senhora professora começou a ensinar as canções que contavam essa história maravilhosa do «Menino» que nasceu pobrezinho e, afinal, é o Rei dos Reis, o Salvador dos homens.

Os olhos da Li brilhavam de entusiasmo ao começar a entender essa história verdadeira e tão linda, que faz deste tempo frio, um tempo de encanto e sonho.

Começou a ver as ruas enfeitadas com milhares de luzinhas, muitas delas vendidas pelos seus pais, começou a entender a razão que leva as pessoas a comprar tantas prendinhas nesta altura, pois até parece que ninguém quer esquecer nenhum familiar, como se cada pessoa fosse esse «Menino» que, em breve, será festejado o seu nascimento.

Interrogando os pais sobre tanta azáfama, percebeu melhor que o Natal é um tempo muito especial em que os homens querem ser mais irmãos uns dos outros, querem ser mais dedicados, querem mostrar que se amam e, de formas concretas, com essas prendinhas, dizer que nos seus corações, todos os amigos, familiares e até os desconhecidos, têm um cantinho bem guardado.

No pensamento infantil da Li, ficará para sempre guardada a lembrança de um Natal vivido em Portugal de uma forma tão bonita, alegre e especial.