Valsa Cósmica
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroPassei recentemente uma manhã a ouvir valsas de Strauss transmitidas pela rádio. Estas valsas contêm, no seu ritmo e melodia, a elegante melancolia dos vastos salões austríacos, mas Kubrick e o seu génio transportaram-nas, através do ícone “Danúbio azul”, para outra elegante melancolia: a do imenso espaço cósmico. Se alguns de nós, na nossa infinita sobranceria cultural já relegáramos Johann Strauss II e suas valsas para a prateleira do kitsch musical, o genial cineasta, em 2001 Odisseia no Espaço, limpou-lhes o pó e fê-las flutuar no infinito vazio do espaço e do tempo, assim devolvendo a imortalidade à valsa.

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António Telmo, o genial poeta filósofo tornado alentejano, punha sempre aos seus cães nomes de rios, a fim de lhes conferir longas e fluentes vidas. Não creio ter tido alguma vez algum cão com nome de Danúbio, mas Tejo e Elba são nomes que me ocorrem imediatamente e de que tenho fotos. Os cães eram seus afluentes e influentes companheiros. Acredito que com eles ao seu lado se sentia menos só.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Kubrik trouxe o Danúbio e a valsa para a incompreensível eternidade, do modo como só um génio poderia tentar curar nossa atávica solidão cósmica. Com ele, a música das esferas passou a ter um tom, um nome, um ritmo ternário, um compositor, uma presença, um consolo.

A extensa planície alentejana a perder de vista é igualmente perfeito cenário para o ritmo ternário da valsa. Dançar com um sobreiro na planície deserta como em salão a descoberto, poderia ser uma imagem onírica interessante se eu praticasse a estética surrealista. Não é o caso, mas deixo-lhe esta imagem, estimado(a) leitor(a), sugestão para início de ano: dançando nos dias como no espaço, como na planície, ainda que percorrendo as ruas da vila ou da cidade. Talvez a música surja, atraída pelo seu dançar. Feliz ano novo!