Vestidos de Infinitos

Paula Freire, opinião
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Vésperas de novo ano, dias de despedidas, balanços, pedidos e esperanças renovadas.

E também, porque não, momento para agradecer o que e quem fez a diferença? Porque não falar daquilo que guardamos como um segredo, por nos ser sempre tão mais fácil julgar e criticar? Na nossa lista de desejos, talvez fosse importante acrescentarmos essa arte de praticar o desvendar do nosso “não imaginas o quanto gosto de ti!”…

Um agradecer legítimo àquelas pessoas que, no frio de muitos dias, foram a luz da manhã a não permitir que os nossos dedos tocassem o vazio de uma neve gelada. Pessoas cujos braços, em jeito de socorro, nos rodearam as lágrimas, só para nos mostrar que somos tanto em tudo quanto já somos e muito mais do que o que pensamos ser. As pessoas extraordinárias que foram encontros e reencontros felizes e que, connosco, partilharam passos e verdades que nos ficarão, infinitamente, em forma de terna recordação.

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Hoje, faço esta justa pausa para agradecer a essas minhas pessoas. As que já moravam ou que vieram viver, pela primeira vez, neste lugar tão desarrumado da vida que, às vezes, é o coração.

 Pessoas que, apenas com o olhar, me encheram de um abraço demorado capaz de me confortar os instantes das batalhas não vencidas. Que foram a cumplicidade que me carregou ao colo e fizeram a diferença especial em cada dia do ano, quando a fé insistiu em desmaiar-me no peito. Aquelas com o dom de abraçar a autenticidade que exalei como fragrância a rodear-me de conforto.

As pessoas que me ensinaram que crescer é também obrigar-me a abrir aquela janela fechada, já esquecida que, em tantos momentos, permite encontrar a respiração certa para as prioridades de cada dia.

As pessoas que tiveram a capacidade de me aliviar o peso das horas mais tristes, com a sua amabilidade e delicadeza desobrigadas, praticadas em puros gestos sem exibição. Gestos que não se ensinam, porque nascem e brotam a partir de dentro.

Pessoas que foram as minhas flores, as voltas perfeitas das minhas palavras, as canções que o tempo me cantou.

Vestidos de InfinitosEssas pessoas que durante todo este ano e em tantos outros já passados, moraram dentro de mim e me tocaram como um beijo entre os lábios.

Não posso prever o futuro, mas como disse Clarice Lispector, na sua descoberta do mundo, “se não sei prever, posso pelo menos desejar, posso intensamente desejar” a estas minhas pessoas que, vestidas de infinitos que as tornam tão únicas e especiais, continuem sempre a ser esse bocadinho mais de luz nos olhos e no bater do coração daqueles que as rodeiam.

A elas devolvo a minha certeza de que pelas viagens mais desoladas dos nossos percursos, é possível continuar a acreditar numa esperança para os dias difíceis e ingratos. Como elas mesmas me mostraram, a vida continuará a ser um imenso desafio no interior de uma caminhada por grandes desertos. Mas os pequenos oásis são possíveis de encontrar, através da paciência atenta de quem os procura e pela forma como nos fazemos amar a nós próprios.

A todas elas e a tantos de vós, o meu obrigada.

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Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.