Benzedeira
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O título desta crónica vai num linguajar franco-britânico, mas o tema é bem nacional e tradicional. Vejamos:

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Estamos na era dos workshops. Estão tão arreigados a este momento, que nem o corrector assinala a palavra como errada. Já entrou no léxico. Há workshops para tudo, já me acostumei, mas no outro dia ainda pasmei quando soube de um workshop de… benzedeiras! Eu, que convivi com uma benzedeira natural (não consta que tivesse feito algum workshop, deve ter aprendido da mãe ou da avó, que por sua vez terá aprendido com a mãe ou a avó) nunca imaginei que se pudesse fazer um workshop de tal coisa. Nós temos a palavra adequada para isto, e a palavra é oficina. Oficina de benzedeiras já me “cai” melhor, é uma coisa mais nossa, mesmo assim tenho dificuldade em pensar em algo assim aprendido em massa e não com transmissão pessoal, quase por iniciação.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

A minha avó Ana Carlota, que vivia na Rua Nova do Poente, em S. Vicente (já aqui falei dela), sentava-se na ampla cozinha alentejana numa cadeira de palhinha das baixas, colocava uma bacia de barro por perto, sentava-me ao seu colo e procedia a um ritual que me deliciava. Era feito de benzeduras, rezas, aspersões e silêncios. Eu não sabia do que se tratava, mas intuía que estávamos a tocar uma fronteira qualquer que não era comum. Deliciava-me com os salpicos e as ladainhas. Daquele ritual que imagino de protecção, ainda sinto os efeitos, como se a minha avó tivesse criado um corredor no tempo por onde continuam a passar os salpicos e as orações (hoje chamar-lhes-iam mantras). A minha avó nunca me disse que íamos fazer um workshop; pegava em mim, sentava-me ao colo e procedia ao ritual. Sinto-me investida de uma autoridade que a vivência e a minha avó me concederam. Mas tenho a certeza que nunca farei um workshop de benzeduras, dessacralizando o que deve manter-se na esfera do sagrado. O ideal era que cada avó transmitisse aos seus netos, com cadeira de palhinha e tudo, a arte. Com ou sem água benta, mas com intenção. Presencialmente, com palavras ditas, ou em pensamento. Existe um corredor invisível entre avós e netos por onde passam as bênçãos que não foram aprendidas em workshops, mas que saíram directamente dos corações sinceros.

Posso estar a ser injusta para com esses workshops, que eventualmente até podem substituir este aprender a quem não o tenha recebido de avós. Não descarto essa hipótese.

Mas preocupa-me a possibilidade de um dia ver por aí anunciado um workshop de… carpideiras, essa instituição já desaparecida, mas que por este andar ainda vai ser recuperada. Quem sabe, junto ao muro das lamentações, com preço de hotel incluído.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.